na verticalidade da nascente

Não eram rosas nem outras flores. O caminho era a aridez do deserto. O tempo, o amigo inseparável, insistente como o levante: “pára, isto é o deserto. Olha em frente a paisagem”. A mulher continuava lívida, cega no caminho que traçara há muitos anos, no interior de si. Dores e feridas que sangravam e que costumava ocultar, com a mestria de uma actriz. Não, não era um palco nem a peça tinha nome, nem o público existia, nem as palmas chegariam a ser, alguma vez, o corolário da vida. Era o palco da alma que sofria num caminho sem linearidade, sem latitude, num aplauso a solo de mãos cansadas e olhares gastos. No cotovelo do tempo, do outro lado de si, a mulher exangue viu a paisagem: um silêncio com linhas e cores, onde um sol rasgava o céu como aves dançarinas, sincopadas, etéreas. A mulher parou. Olhou-se. Sentiu-se.Transpôs-se. Misturou-se com as cores. Fundiu-se nas linhas. O vento soprou de norte tapando a nesga. E o tempo sorriu na verticalidade da nascente.
t.b.
12 Julho, 2010
Etiquetas: quadro de pablo picasso

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